Pintura de Guilherme de Faria, 120x90cm, 1972

terça-feira, 8 de março de 2011

Dias tristes (de Alma Welt)


"Melencolia" (1514) - gravura em metal (a buril) de Albrecht Dürer 1471-1528

Dias tristes (de Alma Welt)
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Dias tristes do meu pampa, "dias tristes
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta

E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.

E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.

E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...


(sem data)


Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).

A Visita de Lady Bones (de Alma Welt)




A Visita de Lady Bones (de Alma Welt)

Pressinto que está chegando ao fim
Conquanto ainda tão cheia de vida.
Matilde diz que isso está em mim,
Que vivo pensando em sua partida,

Pois a nossa visitante, Lady Bones,
Gringa velha que hospedamos há um mês
Não é dada a flautas nem trobones,
Mas afável e gentil como uma rês.

Quanto a mim, considero bem sinistra
A insistência em ir comigo ao poço
E como sua dieta administra,

Sem almoço, nem café nem chimarrão,
Não admira que esteja pele e osso
E que ao recolher-se acene a mão...

03/01/2007

O Eterno Retorno (VI) (de Alma Welt)


O Nascimento de Eva- de William Blake

O Eterno Retorno (VI) (de Alma Welt)

Às vezes ser mais simples eu quisera,
E viver sem questionar o tempo e o ser,
A razão de se viver e essa quimera
Que nos exige trabalhar para viver,

E buscar ser feliz a todo custo,
Mesmo contra nossa própria mente
Que lembra a dor, o medo e o susto
De ver tudo perdido de repente.

Mas perder o quê, além da vida,
Que pelo que se espera lá no fim,
Isso mesmo já é coisa resolvida?

Então viver é sempre procurar
Voltar ao par que fomos no jardim,
Bem antes deste mundo começar...

Vigília espectral (de Alma Welt)


Vigília espectral (de Alma Welt)

No silêncio crepitante da candeia
Recebo estancieiros de outra era,
Que comigo vêm plantar à meia
Sua seara de sonhos e de espera.

E eu os acolho em minha vigília,
Cavalhada espectral e exangue
A formar imensa teia na coxilha,
Penélope de mágoas e de sangue.

Quem espera essa tropa de farrapos,
Contrastando com os tais engalanados.
Neste plaino abandonado pelos sapos?

Don Sebastião não seja, mas o Bento,
Canabarro e Netto, ambos montados,
Anita e Pepe no turbilhão do vento...

08/07/2004

Pavana de Alma Welt)

Posso bem imaginar minha pavana
Aquela, triste, da defunta que serei,
Envolta em pranto, dor e muita gana
De vingança e juras do meu rei,

Sim, Rodo, meu irmão e soberano
E seu fiel Galdério, bom ministro,
A ostentar agora um ar sinistro
Ao convocar o vento nosso, minuano,

Para a batalha final com a potência
Que levou “esta defunta infanta amada”
Aos páramos além de sua demência

Coroada de flores de bromélias,
Na verdade uma pobre desastrada,
A mais branca e tola das Ofélias...