Harpia- desenho de Guilherme de Faria
(Muitos consideram A HARPIA um dos melhores contos longos da Alma Welt, talvez mesmo a sua obra-prima...
Este conto faz parte do livro CONTOS DA ALMA, de ALMA WELT publicado em 2004 pela E...ditora Palavras & Gestos, de São Paulo. Ainda pode ser encomendado em livrarias como a Cultura, por exemplo.)
A Harpia
Sou visitada em meu ateliê por um
fazendeiro, homem interessante, de aspecto citadino, nada matuto, quase belo e
com um jeito cosmopolita. Seu nome é Antônio.
Depois de uma conversa
agradável, em que demonstrou seu entusiasmo pelas coisas da natureza, mais do
que pelas simplesmente rurais, revela-me o motivo de sua visita: quer que eu
pinte, ou desenhe uma ave de sua estimação, muito especial, sobre a qual faz um
certo mistério. Convida-me para passar uma temporada em sua fazenda, onde me
dará todo o suporte para o “projeto”. Estranhei que ele assim chamasse a
encomenda que me parecia fácil á primeira vista antes de conhecer,
naturalmente, o objeto do “portrait” (uma simples ave, pensava eu). Ah! Como eu
poderia imaginar o que se passaria então, mesmo sabendo de antemão que quando
me tiram do ateliê sou entregue às aventuras mais insólitas...
Passados
alguns dias de preparativos, em que além do meu saco de viagem, junto uma
parafernália de pintor, com telas, papéis, tintas, pincéis potes, etc, afinal
um motorista vem buscar-me em meu prédio. Desço com dificuldade, arrastando pelo
elevador e corredores a tralha toda, e passando pela portaria sou observada
pelo porteiro que agora mostra-se mais solícito e humilde. Parece rendido à
aceitação do meu estranho (para ele) estilo de vida. Ajuda-me a pôr a
bagagem, junto com o motorista, na grande Van em que faremos a viagem.
O motorista, Jeová, é um negro
enorme, mais alto que uma porta. Tem um riso franco, fácil, branco como o
marfim da África. No caminho, sob meu interrogatório, vai me contando da
fazenda, de sua reserva florestal, seu belo açude e do aviário: mania e paixão
do seu patrão. Quanto a esse, Jeová, por discrição, quase nada revela, senão a
sua própria devoção e fidelidade, bastante sugestivas .
Durante a viagem que me pareceu muito longa, a certa altura, quis passar
para o banco de trás a fim de dormir o resto do percurso, o que fiz com um
sentimento de segurança total, pois o Jeová, além de excelente motorista era o
guarda-costas ideal: poderia, como uma criança dormir em seus braços...
Sonhei durante
todo o resto da viagem. Lembro-me de que
me vi dentro de uma enorme estufa
envidraçada, parecendo uma imensa gaiola de arame em que estranhamente
não havia flores. De súbito o teto da estufa pareceu abrir-se e um avejão indefinido desceu sobre mim estendendo grandes pés de ouro
escamado, com garras de aço negro. Encolhi-me no solo da estufa, agora um
aviário, e fechando os olhos como o sortilégio das crianças, vi-me nos braços
de um homem maravilhoso mas do qual não avistava o rosto, cercados por um espantoso voejar de pequenos pássaros: beija-flores,
canários, coleirinhas, etc. Aninhei-me nos braços do meu salvador botando a
cabeça mais próxima do seu peito e
ouvi-lhe as batidas apaixonadas. Senti um violento cheiro de homem e
acordei.
Estava no colo
de Jeová sendo retirada da Van como uma
criança, diante de uma bela casa moderna, térrea, avarandada, cercada de
magníficas árvores e jardins. Acordada, deixei-me levar até onde Jeová quis e
este depositou-me num magnífico sofá da sala envidraçada, e dando aquela risada
de Pai Tomás, disse-me que eu dormira mais de duas horas, e se eu queria tomar
um banho antes do almoço, etc. Claro que aceitei. A suíte e o banheiro pareceram-me maravilhosos
e acolhedores .Depois, refrescada e disposta, fui observar a sala e o jardim enquanto esperava
o meu hospedeiro. Andando em volta da casa avisto logo o aviário e encaminho-me
para lá .Fico ali, encantada com miríade de pequenos pássaros que me saúdam
esvoaçando excitados dentro de uma imensa gaiola, onde estão as pequenas jóias.
Muitas outras se avistavam por ali .Diante da gaiola dos pavões permaneço
emocionada, pois os machos logo põem-se a me exibir seus leques adornados,
despertando-me antigas lembranças...
De repente,
sinto atrás de mim, a respiração de alguém e voltando-me encontro o sorriso de
Antônio que saúda-me e imediatamente pegando-me pela mão, leva- me pelo
labirinto de gaiolas do aviário, enquanto pergunta-me sobre a minha viagem, se
estou bem instalada, etc. Subitamente cala-se e aponta-me com olhar uma grande
gaiola, uma verdadeira jaula com uma enorme cúpula arredondada, atravessada por um alto poleiro no qual uma
sombra imensa estava pousada, imóvel.
Temerosa,
tensa, permaneci extática diante da jaula tentando entender aquela massa cinza
prateada, com áreas brancas, ondulada pela brisa. Parecia acéfala, até que, com
um movimento rotatório, seu rosto e imenso bico apareceram vindos do lado de
trás . Uma coroa, como um cocar de prata
com pontas pretas eriçou-se e os grandes olhos negros com um brilho abissal, fuzilaram-me com a mesma afilação de seu bico
de gancho, de aço negro .
Seu torso
ergueu-se um momento, expondo as pernas calçadas, até a metade, de branco, com
canelas e pés grossíssimos, amarelo
ouro, garras como punhais curvos que prendiam-se ao forte
poleiro como anéis de ferro e sob elas,
um rato morto ensangüentado. Seu peito branco e macio, emplumado, exibia um
ligeiro carijó que salientava o aspecto prateado da ave. Eu estava diante de um animal mítico. Esse
pássaro não poderia existir. Ele vinha do fundo imemorial do inconsciente.
Remontava à Grécia Arcaica, à Idade de Ouro ou dos Heróis. Seu silêncio
continha o ronco inaudível de um baixo contínuo , como o prefixo musical de um
filme de terror.
Eu
estava fascinada ... e horrorizada . Movi-me lentamente em torno da gaiola
acompanhada pelos olhos fixos do animal, que para isso movia a cabeça sem mexer o corpo, como uma peça giratória
independente, capaz de um giro de 360 graus, pareceu-me. Não havia jeito de
olhá-la pelas costas, ela não permitiria: rapinante perpétua, em constante
predação, seus olhos e adagas negras dilaceravam meu imaginário.
Ouvi a voz de Antônio, dizendo:
-
“Esta é a Harpia, meu orgulho e culminância da minha coleção... É ela
que você deverá retratar... Para isso você tem o tempo que quiser. Ela estará
aqui posando para você . E voando,
também, nos horários de treinos. Pois eu
a domestiquei para a caça, como um
falcão. Você verá ... Tenho de fazer musculação todas as manhãs para
sustentá-la em meu braço, com seu capuz especial que mais parece uma máscara de
Veneza. Amanhã bem cedo cavalgaremos, você e eu, com ela em meu braço, até uma
reserva florestal que tenho aqui e você a verá caçar macacos e trazer-nos, como
na antiga arte da falcoaria, só que maior e mais forte, como cabe à nossa raça tropical.”
Olhei-o nos olhos, sem saber o que
dizer . Antônio me surpreendera e agora eu queria enxergar o ponto cruel em seus olhos, que aquilo que ele descrevera
me sugeria . Era difícil perceber no homem civilizado, esta veia de cavaleiro
antigo, falcoeiro, sanguinário, naqueles olhos francos, meigos; naquele seu
cabelo bem penteado, de comportadas têmporas esbranquiçadas, na fala mansa e
grave...
Disse-lhe
que sim, que eu o acompanharia. Estava hipnotizada pela ave e a serviria
também, para que ela me mostrasse toda a sua potência e toda a beleza do seu
vôo que eu já imaginava. Neste momento, ela mudou de lado no poleiro e para
isso abriu um pouco as asas para equilibrar-se sem soltar o rato, o que me
permitiu ver as listas negras nas suas pontas e na parte interna branca do
dorso prateado. Eram imensas e a mais leve brisa levantava as pontas emplumadas
de suas penas, o que lhe dava o aspecto macio de um trigal ao vento, mas que
fosse prata, pois ouro eram suas pernas...
Afastamo-nos afinal, em direção à casa,
para o almoço, ele dando-me o braço no qual me apoiei, pois sentia-me
estranhamente fraca, o que atribuí à fome e à viagem.
Antônio mostrou-se um anfitrião
requintado. Serviu um maravilhoso vinho tinto para acompanhar o assado,
garantindo-me que esse não era de macaco, dando uma gargalhada alegre. Sorri
meio amarelo, pois estava ficando incomodada com a imagem do bichinho
ensangüentado nas garras do monstro. Preferi mudar de assunto .
Após o café e o licor, Antônio abriu
uma caixa de charutos, ia
me oferecer, mas com um sorriso recolheu-a, dizendo: -
Sou um homem à antiga: não oferecerei charutos a uma dama, embora isso já
esteja acontecendo nos clubes especializados, por aí. A você oferecerei um
bombom de licor. De qualquer maneira, Alma, não posso imaginá-la baforando.
Você é a mulher mais delicada que tenho visto em muitos anos, e asseguro-lhe,
isto é um cumprimento.
Sorri
e apanhei o bombom.
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No dia seguinte, levantei bem cedo e
após um rápido café, peguei papel, lápis, material de desenho. Também pincel
japonês e tinta nanquim para tentar um sumiê rápido da minha ilustre modelo. Ao
aproximar-me da jaula, ela já me fitava há muito tempo. Fiquei ali olhando-a,
olhando-a . Absorvendo suas formas para depois esquecê-las, apagando-as, para,
com a mente em branco, desenhá-la em segundos, com os golpes fatais do pincel
japonês.
Neste momento ouvi a voz muito grave
do Jeová:
- Dona Alma, se a senhora quiser,
pode entrar na jaula, eu garanto. Assim poderá ver ela bem de perto, se
precisar.
Surpresa,
disse-lhe num impulso, que sim, que queria entrar. Ele então pegando uma chave do molho, abriu o cadeado e
ofereceu-me a porta aberta, que adentrei imediatamente. Aproximei-me lentamente
da Harpia e esta foi agachando-se cada vez mais no seu poleiro, com a cabeça
mais baixa e as asas palpitantes quase querendo abrir-se. Seu olhos fuzilaram
os meus e o seu cocar eriçou-se. Tive um súbito arrepio ( a passagem de um anjo
) e voltando- me para trás dei com o Jeová em postura de alerta, tendo nas mãos
uma comprida vara, cuja ponta ostentava perpendicularmente uma rede estendida
numa armação circular. Dei um pulo
instintivo e corri para fora da jaula.
Ofegante, assustada, gritei:
-Oh!
Jeová, o que você fez? Para quê essa rede ?
E
ele: “Dona Alma, é para sua segurança. Para isso estou aqui. Nunca se sabe .
Ela poderia saltar... em seu rosto.”
Quis bater-lhe. “Jeová! Jeová!” Gritei indignada. “Você não
podia fazer-me correr esse risco, não vê?!”
Saí
correndo dali. Tinha perdido a confiança em Jeová e isso me deixava
estranhamente desamparada naquela fazenda. Agora o medo se insinuara e eu já
não me sentiria à vontade. Antônio, meu hospedeiro, embora gentilíssimo me
parecia agora vagamente sinistro. Jeová veio atrás de mim, balbuciando desculpas,
consternado, reconhecendo sua culpa, implorando meu perdão. Dizia:
-“Sinhasinha Alma, não me perdôo, agora
compreendo minha tolice. Mas, juro, eu protegerei a senhora de tudo, o resto da
minha vida, se a senhora permitir...”
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Mais tarde, Antônio, apareceu em traje
de montaria e convidou-me a acompanhá-lo no treino, como ele chamou,
eufemisticamente a caçada. Fiz um esforço para superar minha confusão de
sentimentos e meu mau estar. Eu devia seguí-lo, não queria passar por uma
femeazinha melindrosa diante do garboso
cavaleiro medieval. Arranjou-me umas botas e montamos os cavalos que nos foram
trazidos até a porta por Jeová, que também montado, carregava a Harpia
encapuçada, em seu enorme braço enluvado. Passou-a ao patrão, que calçara ele
próprio uma luva de couro grosso que chegava até o cotovelo. Era impressionante
ver o falcão gigante com aquela máscara sem furos para deixá-lo cego e quieto,
pousado nos braços couraçados de homens fortes. Admirei-lhes a coragem e
determinação um pouco primitivas, que me atraíam estranhamente. Há fortes
atavismos entre homens e mulheres...
Cavalgamos, os três, por um bom trecho de estrada poeirenta, até
sairmos por um prado em direção a uma floresta que se avistava ao longe.
No
meio do prado ainda a uma grande distância da floresta, Antônio tirou com
cuidado e destreza o capuz da Harpia e soltando uma correia fina de couro que a
prendia à sua luva pelo pé, impulsionou-a no ar. Ela abriu as imensas asas e
alçou-se, sem um grito. Seu vôo majestoso era indescritível. Mais planado que
outra coisa, dirigia-se à floresta, atingindo logo uma grande altura em correntes ascendentes, para pairar
sobre a mata com sua visão estereoscópica. Depois, lá de cima, fechando
ligeiramente as asas mergulhou a uma
enorme velocidade sobre as copas das árvores mais altas. Era fantástico!
Desapareceu de nossas vistas. Após alguns segundos emergiu com um estranho
fardo nas garras. Um macaco já morto, trespassado pelas suas adagas curvas.
Voou até nós enquanto Antônio saboreava uma taça de vinho servida por Jeová
que carregava em seu cavalo sacolas misteriosas. Este estendeu-me uma taça cheia mas eu estava perturbada, achando aquilo tudo
excessivo. Jeová recolheu o macaco ensangüentado, de maneira sincronizada
enquanto repassava ao patrão a ave despojada de sua presa. Pensei no destino final do animalzinho...O que
fariam com aqueles tristes despojos? Seriam
o prêmio da Harpia, sua refeição? Não quis mais ver. Estava louca para
sair a galope por aquele prado. Antônio parecia-me agora um homem cruel, embora esse pensamento encontrasse ressonâncias contraditórias em minha alma.
. Bem, eu estava ali com um propósito,
uma missão, um trabalho. Haveria de cumpri-lo.
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Alguns dias se passaram e eu
esboçava abundantemente, fazendo belos desenhos da águia em diversas posturas
que eu observara. Cabeças, garras, asas, porções definidas de sua maravilhosa
anatomia. Sentia que a conhecia bem por fora. Mas, e por dentro? Era necessário
conhecê-la? Eu tinha medo. Conhecia minha própria sensibilidade exacerbada que
poderia me conduzir ao tal delírio da razão, que produz monstros... Mas, a
verdade é que aquele animal, mais que qualquer outro, era todo o seu exterior,
suas feições e sua anatomia. Estava todo ali, na sua corporificação, na sua
exterioridade intensa, fruto da exalação contínua de sua rapinância íntima,
contumaz, perpétua e arquetípica. Não poderia descrevê-la por menos.
Estava pronta para o desenho definitivo.
Lembrei-me da fábula do cavalo do Imperador.(-“mas Mestre, se era tão fácil
faze-lo, por quê não o fez antes? “Vossa Majestade me perdoe, precisei desenhar
mil vezes o vosso cavalo, para poder faze-lo
agora com dez traços...)
Então, ocorreu um incidente que precipitou os acontecimentos.
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O Mercedes negro chegou, pomposo, e estacionou
em frente à casa, no cascalho. O motorista branco desceu e abriu a porta para
uma imponente mulher madura, mas ainda bela, elegante, num estilo nitidamente
europeu. Entrou na casa enquanto o empregado descarregava as malas.
Encontrando-me na sala, tirou as luvas puxando-as meticulosamente pelos dedos e
estendeu-me a mão, sem um sorriso, dizendo:
- Sou Chiara, a mulher de Antônio. Não me esperavam, não é
mesmo? Quem é você, mocinha, posso saber?
Senti-me dentro de uma
daquelas situações falsas, que tanto detesto, mas esforçando-me para não perder
o “aplomb,” respondi:
- Sou Alma. Uma pintora, a
senhora sabe... Fui contratada pelo seu marido para retratar a Harpia...
- Contratada, não é? Que
interessante! Antônio sempre foi original... A Harpia ainda está viva? Esperava
encontrá-la empalhada num poleiro no escritório. Seríamos todos mais felizes,
podes crer...
Neste momento dei-me conta de
que em nenhum instante me ocorrera perguntar pela situação de Antônio, se era
casado, solteiro ou separado. Havia uma mulher na sua vida? Nem isso me
ocorreu. Eu definitivamente, não era como as outras mulheres... Mas, também, eu
estava ali de absoluta boa fé, acreditando na minha missão, no meu contrato de
artista, se preferirem. Serei tão ingênua, afinal? Então, haverá alguma coisa
por trás do convite de Antônio? Não, não posso crer. Sou uma artista
reconhecida, já não sou mais uma menininha, muito menos uma fêmea
qualquer...Não, esta mulher não vai infectar-me com sua maldade, com sua
vulgaridade disfarçada de elite, de nobreza decadente. Se ela passar dos
limites pularei no seu pescoço!..
- Dona Chiara, o prazer é todo meu.
Seu marido falou-me muito da senhora e advertiu-me para não mostrar-lhe meus esboços já que a
senhora tem horror ao animal. Mas é compreensível, não se trata de um mascote
qualquer. Eu diria mesmo que aquela ave é um pouco sinistra, concordo com a
senhora. Mas ainda assim é uma criação de Deus e talvez sua obra prima, depois
do tigre e do cavalo. Mas deixe-me buscar-lhe um drinque, a senhora acabou de
chegar...
Chiara olhou-me, intrigada,
procurando descobrir se eu era simplória ou irônica mesmo. Pediu um uísque com
gelo, e servida, só então sentou-se com
aquele fabuloso cruzamento de pernas que necessita três gerações de salão para
se realizar com classe. Ainda estava
disposta a intimidar-me.
Fomos interrompidas em nosso sutil
duelo pela entrada de Antônio que com um gesto de surpresa, logo superado,
curvou-se para beijar o rosto de sua mulher que o mediu de alto a baixo,
dizendo:
-Antônio, você parece ótimo, não há
meio de envelhecer. Nem de acalmar-se, não é mesmo? Sempre surpreendendo...
Nunca me alerta sobre suas visitas.
Ainda bem que este ano temos Alma, que além de linda é uma artista talentosa,
quero crer. Mas haverá tempo para nos conhecer-mos melhor. Vim para ficar.
Espero somente que Alma esteja bem instalada no quarto de hóspedes. Você está,
querida?
Antônio soltou um suspiro logo
seguido de uma gargalhada. Disse:
-Chiara, Chiara, você é incrível!
Não a esperava, confesso, afinal sua última carta chegou ontem, de Monte Carlo.
E eu nem pude acabar de lê-la... Talvez no final dela você falasse no seu
retorno, não é? É o que dá ler cartas
tarde da noite. Adormeci, me desculpe... Mas, de qualquer maneira, estamos aqui
reunidos. Alma é uma nova amiga e lhe fará alguma companhia, não é mesmo, Alma?
Mas não vá ocupá-la muito, pois Alma é uma artista muito concentrada e séria. E
sei que não brinca em serviço... Mas, e
você? E como vai sua mãe? Ficou em Mônaco? Minha querida sogrinha...
Chiara lançou-lhe um olhar de
esguelha, indescritível. Percebi estar no meio de uma guerra surda que já
durava anos. Aquilo me incomodava. Queria somente desenhar, fazer a minha obra
e cair fora. Que diabo!.. Sempre me metendo em encrenca...
Pedi licença, levantei-me e fui
visitar os pássaros. Fiquei um bom tempo observando os passarinhos que pareciam
me reconhecer. Vinham me saudar, e um deles pousou no meu dedo através da tela.
Aproximei meus lábios de seu bico e ele correspondeu, com uma bicadinha,
deixando-me encantada. Mas não quero ser piegas. A Harpia também me esperava
com o seu arsenal de posturas agressivas, sua violência latente. Isso me fez
meditar no estranho balanço da vida.
Ouço então a voz de Jeová atrás de
mim, mais uma vez dizendo: “Dona Alma, quando a senhora terminar o retrato do
bicho, e tiver que ir embora, queria pedir-lhe um desenhinho, uma coisinha que me lembrasse a senhora. Um daqueles
rabiscos que a senhora fez tantos, da águia. Para mim aquilo parece a sua
letra, como uma carta, a senhora me entende. Nunca vi coisa igual... Não que eu
saiba ler muito bem, mas a alma de uma pessoa pode estar toda ali, nunca tinha
pensado nisso...”
Fiquei comovida,
pousei minha mão no seu braço enorme, capaz de matar um touro e senti toda a
delicadeza daquela alma sensível e sutil, dentro do corpo de gigante rústico.
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Chiara está tentando se aproximar
de mim, como era de se prever. Afinal, somos duas mulheres aqui, somente, sem
contar com a empregada que é tão discreta e anódina que não ocupou meus
pensamentos a não ser por seu excelente tempero. Mas voltemos a Chiara. Esteve
fechada em seu quarto por dois dias. Um mistério!.. Como alguém pode trancar-se
assim num lugar como este, de maravilhoso cenário natural? E com este sol ainda
por cima!
Mas Chiara saiu do quarto
aparentemente mudada, pelo menos em relação a mim. Veio ao meu encontro diante
da jaula da Harpia e observou-me desenhando por uns momentos. Depois suspirou e
pondo a mão no meu ombro disse:
-Alma, me desculpe. Peço-lhe perdão
pelo nosso encontro desajeitado. Apague tudo, sim? Como um esboço mal feito da
nossa relação que pode ser tão bonita... Veja, eu dou a mão à palmatória. Você
é encantadora e eu não tenho motivos para odiá-la, muito menos para menosprezá-la. Mas quero que você me conheça
e saiba tudo o que sofri por esse homem, neste lugar e fora daqui, por esse
mundo todo. Venha comigo até o meu quarto. Quero mostrar-lhe algumas coisas.
Você compreenderá...
Acompanhei-a prontamente. Em seu
quarto abriu uma gaveta e tirou do fundo maços de cartas, pacotes de
fotografias, bilhetes e todo aquele rastro que as vidas costumam deixar,
indefectivelmente.
Desvendou-me o significado de
certas passagens escolhidas, enquanto eu, constrangida e curiosa ao mesmo
tempo, ia descortinando o drama passional daquela dupla. Ah! Os bilhetes, como
eram sugestivos!.. E as cartas, que ainda ostentavam vestígios de odores e de
lágrimas. Fotos aparentemente inofensivas, que desveladas por ela mostravam o
seu poder corrosivo, sua violência oculta. Versos, súplicas, ameaças, o
desamparo de vidas entregues às paixões de si mesmas , tão sem rumo, tão sem
ideal...e no entanto, tão cheias de amor e dor reais.
Saí daquele quarto meio siderada,
bastante confusa. Sentia-me triste, tinha mergulhado um pouco no drama conjugal
alheio, inesperadamente. Estava ficando de alguma forma envolvida, não sei bem
por quê...talvez por empatia. Tinha me aproximado de Chiara, e compreendia
agora o seu ressentimento, sua amargura de mulher ferida pelo amor de sua vida.
Naquela noite, a casa estalava
em minha insônia, e julguei, na penumbra do meu quarto, avistar a sombra da
Harpia me observando, na parede fantasmagórica. Pensei em abandonar o projeto,
voltar para o meu ateliê e afastar-me daquele triângulo com seu vértice
desumano. Foi uma longa noite, onde minhas dúvidas e perturbações faziam-me
ouvir estranhos gritos de aves e o silêncio aterrador da Harpia.
Incapaz de conciliar o sono, saí pela
porta envidraçada que dava para a varanda inundada pela luz da lua cheia e
debrucei-me na grade observando o jardim, que palpitava de cantos noturnos de
grilos e sapos. Vagalumes dançavam suas luzinhas encantadoras, e senti-me
melhor que no quarto. Estava me apaziguando, quando percebi um vulto que
cruzava o jardim. Chiara, de camisola branca vagava entre as árvores e os
canteiros, descalça, nitidamente sonâmbula. Dirigia-se ao aviário, o que me fez
estremecer, com uma súbita apreensão. Pensei em chamá-la, mas lembrei-me do que
dizem sobre acordar sonâmbulos e resolvi seguí-la. Quase a perdi de vista, mas,
como supunha, encontrei-a frente à jaula da Harpia. Aproximei-me por trás e
permaneci parada e em silêncio. Ela voltou-se, após alguns segundos e caminhou
em minha direção parecendo não ver-me e passou por mim dirigindo-se à casa onde
penetrou pela varanda. Fiquei alguns minutos espreitando e com o coração
apreensivo, voltei para o meu quarto.
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Acordei com a ressaca da noite
mal dormida. Antônio me esperava na cozinha para o café da manhã. Estava, como
sempre, impecável, em seu estilo vigoroso e saudável de guerreiro ocioso. Dos
cabelos bem penteados às botas de montaria perfeitamente engraxadas. Após uma
alegre saudação matinal em que seu olhar demorou-se um segundo em minhas
olheiras, convidou-me a percorrer com ele as suas terras. Suspeitei que queria
uma oportunidade para falar-me confidencialmente. Sempre me cabe esse papel e
não posso furtar-me a ele. Na verdade sou boa ouvinte pois não tenho veleidades
de conselheira. “Se conselho fosse bom...” Considero-me apenas uma testemunha
compassiva dos dramas alheios. Mas eles mexem demais comigo e me fazem sofrer,
coisa que desconserta um pouco os protagonistas. Quanto a Antônio, parecia
preocupado, mas não propriamente um sofredor.
Tomamos a estrada a pé, assim
poderíamos observar melhor a paisagem e conversar... Antônio olhava em volta
com aquele olhar de rei guerreiro que inspeciona os seus domínios.
De repente, sentou-se em um
toco diante da maravilhosa paisagem, observando o vôo de um gavião. Pôs a mão
em aba sobre os olhos, com aquele ar de conhecedor. Mas seu silêncio anunciava
o começo de seu desabafo, que previ:
-Alma, você viu. Tentei ser conciliador. Já fiz tudo para
redimir-me diante de Chiara. Mas seu ressentimento persiste. Quer tomar-me a
mim, como uma espécie de castigo. Quer a minha alma. Parece identificá-la com a
Harpia, e gostaria de vê-la aprisionada para sempre, ou morta. Quer humilhar-me
e não aceita desculpas altivas. Todas as mulheres são assim? Não, não precisa
me responder. Você certamente não é assim. Você parece um anjo, intocado por
esses dramas humanos, mas cheia de compaixão. Eu a admiro, Alma. Com você por
perto quem sabe me ocorra, como uma inspiração, o caminho a tomar. Mas...
diga-me alguma coisa.
– Antônio, está na minha natureza,
somente a capacidade de identificação. Não tenho o dom do julgamento. Diante de
você penso e sinto como você, com a mesma confusão. Creio, às vezes, não ter
personalidade alguma. Diante de uma árvore, sou a árvore, e das estrelas, uma
estrela. Das crianças então... Todavia, um núcleo em mim persiste, que não
permite desintegrar-me. É ele que me diz o que fazer e o que dizer, diante da
dor alheia. Ele me diz agora: leve sua mulher daqui com você, e derrame sobre
ela a sua ternura contida. Afaste-se desta Harpia, por mais maravilhosa que
você a considere. Ela se tornou o símbolo da sua discórdia, e isso não tem mais
jeito, no que diz respeito a ela. Você pode salvar seu casamento, se isso o
interessa. Chiara parece merecer essa chance. Ela o ama demais e nunca lhe
ocorreu traí-lo para vingar-se. Tudo o que faz é debater-se em sua dor, e odiar
aquele animal, como se fosse ele que os separasse. É o que vejo, claramente. Se
ela permanecer aqui, atentará mais cedo ou mais tarde contra aquela pobre ave,
e isso será desastroso. Na sua impotência diante do muro que ergueu-se entre
vocês, ela o identifica com a jaula do aviário. Vi o seu olhar de sonâmbula.
Não quero pensar na possibilidade dela querer transpor as grades... Saiam
daqui, juntos, o quanto antes... É tudo que lhe posso dizer.
Antônio olhou-me, por um momento,
como se eu fosse louca. Depois suspirou e sorriu.
-Alma, Alma, você é artista, vê
símbolos em toda parte. Sou um homem objetivo, tenho minha fazenda para cuidar,
e minhas aves são apenas meu hobby. Não posso ausentar-me agora. Chiara não faz
mais que viajar, há anos. É uma fuga, eu sei. Mas fugir com ela?.. Seria levar
conosco essa jaula de que você fala...
Olhei Antônio nos olhos,
reconhecendo a sutileza de sua última afirmação. Mas a idéia de que deveriam
afastar-se daqui, juntos, persistia em meu espírito. Uma sensação de desastre
iminente, afligia-me, apertava o meu coração. Ah! Por que tenho de envolver-me
sempre?.. Sou impotente sobre o meu Destino, quanto mais sobre o dos outros.
Mas quando vejo dois amantes infelizes, quereria poder uni-los, destruir as
barreiras que embora fortes, me parecem sempre fúteis. Não deveria ser o amor,
a própria resposta para tudo?
Voltamos, andando em silêncio,
em direção à casa. Antônio, voltou-se para mim, sorriu e afastou-se, em direção
ao aviário. Eu que pensava estudar o Monstro, adiei para a tarde o trabalho.
Encontrei Jeová em frente à casa acabando de
selar dois cavalos. Percebi que Antônio tinha desistido de vez de levar-me às
caçadas. Tinha visto minha repulsa à crueldade. Eu teria a manhã ociosa, e
decidi fazer companhia à Chiara. Encontrei-a na cozinha, tomando café. Estava
impecável, como Antônio. Admirei-lhe a beleza um tanto pálida e seus magníficos
cabelos ondulados. Seus olhos muito negros contrastavam com o castanho mechado
de ouro de seus cabelos, e suas belas mãos, pareciam acostumadas às torradas
com caviar, embora ela estivesse passando manteiga. Saudou-me com um beijo à
distância e ofereceu-me uma torrada. Fiquei ali com ela, fitando-nos
demoradamente nos olhos, enquanto ela mastigava elegantemente, de maneira
indescritível. Seu olhar oscilava da malícia à cumplicidade, sem desviar-se dos
meus. Pensei: será esta mulher um tanto fútil? Parece estar brincando... Nada
entre esses burgueses é totalmente sério. Estarão zombando de mim? Bem,
entrarei no jogo, somente enquanto não houver armas de verdade...
Levantamo-nos da mesa e Chiara
abraçou-me para caminharmos no jardim. Andamos abraçadas, enquanto Antônio
e Jeová afastavam-se à cavalo, com a
águia no braço enluvado do gigante negro.
Antônio voltou-se, de longe, e
olhou-nos por alguns segundos. Chiara soltou-me o ombro e fingiu voar pelo
gramado com os braços abertos, num círculo que fechou em minha direção, com as
mãos em garra imitando o bote da águia, com um riso cristalino. Seus dedos
agarraram-me pela cintura e jogaram-me ao chão. Rimos como crianças, emboladas
sobre a grama, mas eu me senti um pouco desconfortável com a brincadeira, pois
percebia-lhe um tom irônico. Que queria ela com isso? Serei eu o macaquinho
destes dois farsantes? Levantei-me e corri para a casa, enquanto Chiara
chamava-me aos gritos e gargalhadas. Tranquei-me em meu quarto para meditar. O
que realmente se passa entre esse casal? Qual a próxima jogada deste xadrez?
Serei eu o último peão, descartável, antes do xeque mate? Pára, cabeça! Para de
especular. O delírio da razão... Esses dois se entendem. Em briga de marido e
mulher... Vou voltar para casa hoje mesmo.
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Ao cair da tarde, já apaziguada,
dirigi-me ao aviário para desenhar. A passarada toda me saudava no caminho, e a
Harpia parecia esperar-me. Encontrei o Jeová, cuidando da comida dos pássaros.
Deu um riso alegre e seu rosto iluminou-se.
O gigante parece mesmo gostar de mim... Disse:
-Sinhazinha Alma, não vou abrir a
jaula, não senhora. Pode desenhar à vontade, mas deixa eu olhar um pouco.
Parece mágica o jeito que a senhora faz isso.
- Está bem, Jeová, disse eu. Mas esse
bicho parece estar bem empanzinado, com um macaco no bucho, não é mesmo? Um
macaco por dia, Jeová? Haja macaco!..
Jeová olhou-me intrigado,
estranhando meu sarcasmo. Pareceu desconcertado, mas logo dando aquela
risadinha de velho escravo fiel, sentou-se perto e ficou observando-me
desenhar.
--Jeová, -- perguntei – como você conheceu o seu patrão,
posso saber?
- “Ah! Dona Alma. Isso é uma
longa estória. Meu patrão é um homem aventureiro. Agora é que ele está meio
acomodado. Mas se a senhora soubesse o que passamos juntos por esse Brasil grande... Foi num garimpo, lá em Mato
Grosso. Esse homem descobriu tanto ouro que lhe deram o apelido de mercúrio.
Atraía tudo pra ele mesmo. Separava o cascalho, do tesouro, como se tivesse
nascido pra isso. Tanta sorte despertou a inveja dos outros. Ele seria
certamente morto naqueles dias. Mas ele comprou a minha liberdade com uma
pepita grande e meu credor me libertou,
depois de eu estar há dez anos naquele inferno. Jurei servir e proteger ele com
a minha vida. Fugimos juntos por cima de dois ou três cadáveres, a senhora me
entende. Carreguei o sinhozinho ferido nas costas, no meio da floresta e
descemos um rio, com ele deitado no fundo da canoa roubada. Ele delirou durante
dois dias no fundo daquela canoa sobre o rio e na areia das praínhas durante a
nossa fuga. Foi esse seu delírio que nos aproximou. Eu vi a alma dele nesses
pesadelos e o que eu vi, não me desagradou. Cada um solta o que tem no seu
inferno, e esse é um homem atormentado, mas bom como uma criança, dona Alma.
Nunca vi ele odiar de verdade, nem levantar uma palavra ruim para alguém. É
como se fosse um daqueles professores de escola, só que melhor. Ele não ralha,
nem pune ninguém, mas tem uma autoridade, uma força que vem de dentro. Perto
dele eu sou fraquinho, dona Alma, não sei se a senhora me entende.”
Meus olhos marejaram um pouco.
Naquele momento resolvi permanecer até o fim da minha missão. Por alguma razão
maior conheci estas pessoas. Há uma lição aqui, a aprender, e à artista cabe
fazer a sua obra, dar o que tem. Lembrei-me da frase de um amigo perspicaz: “ O
talento faz o que quer, o gênio faz o que pode...” Em certo sentido, há um
gênio em todos nós, na Humanidade. Fazemos o que podemos. Essa é a glória do
Homem e sua tragédia. Mas pára de filosofar, Alma, que você é só uma artista.
Faça o seu desenho, o melhor que puder e o resto lhe será acrescentado...
Mostrei o resultado ao Jeová e
ele ficou um tempo dando aquela risadinha, deliciado. Dizia: Tal e qual, dona
Alma, hi, hi, hi...Veja só... É ela! Como é que pode? Com tão pouca coisa...
Presenteei o esboço ao Jeová
que pareceu deslumbrado. Deu um beijo no papel e saiu abanando a cabeça e
rindo. Senti-me gratificada. Mas sabia que ainda não era a obra definitiva.
Recolhi-me ao meu quarto, para
ler um pouco. Mas não consegui concentrar-me na leitura. Estou em fase de
criação, ou de gestação, pelo menos. Estou absorvendo tudo isso ao meu redor.
Mas nesse processo, também estou me confundindo com o que me rodeia. Há uma
pequena dor que me incomoda. É a dor deste casal. Sua separação espiritual me
abala como uma ruptura interna. Por quê sou assim? Queria poder unir as pessoas
em torno de mim. Seria uma forma de egoísmo, disfarçada? No fundo o que quero é
paz, harmonia, no pequeno mundo em que me cabe viver.
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Ouço um soluço dentro da noite,
murmúrios, depois um lamento, choro copioso. Levanto-me da cama e somente de
calcinha, corro até o corredor, sem pensar. Colo o ouvido à porta do casal. A
porta se abre e Antônio puxa-me pelo pulso para dentro e aponta-me sua mulher.
Chiara está jogada na cama de peignoir, com os pulsos ensangüentados. Corri em
sua direção e estapeei-lhe, absurdamente, o rosto coberto de lágrimas. Está
viva, naturalmente, e embora os lençóis estejam todos manchados, ela não está
sangrando mais. Os cortes são superficiais e já apresentam esparadrapos sobre
eles. Antônio está furioso, fora de si. Aponta-nos com os dedos e diz:
- Vocês mulheres são loucas! Não
entendo! Não aceito! Veja isso... É demais! Alma, cuide dessa maluca. Usou esta
faca, mas antes tentou matar-me. Não agüento mais!...
Avançou um pouco em nossa
direção, e instintivamente cobri Chiara com meu corpo como se ele fosse
agredir-nos. Fuzilei-o com os olhos e ele parou desconcertado e olhando-nos
fixamente, em silêncio, voltou-se e saiu para o jardim.
Chiara soluçava em meu peito.
Meus seios estavam manchados de seu sangue, que ela lavava com suas lágrimas.
Murmurava: Alma, Alma, leve-me com você! Vamos fugir, vamos fugir! Esse homem
nos matará... com seu desamor. Eu sei, eu sei. Não se deixe enganar. Eu o
conheço. Ele é cruel... como a Harpia. Estamos todos sob suas garras. Não se
iluda, Alma, para isso ele a chamou. Precisa de novas presas. Sempre foi assim.
Afastei-a um pouco, olhando-a
bem nos olhos. Parecia realmente apavorada. Temia a ele ou a si mesma? Alguma
coisa precisava ser feita. Sentei-me na poltrona meditando, os olhos fixos nos
dela.
–Chiara, isso tem que acabar.
Sim, levo-a comigo, para o meu ateliê. O tempo que você necessitar. Vocês dois
precisam ser apartados, por enquanto. O amor de vocês está doente. É
isso...vocês estão doentes. Nada mais que isso. Não nos deixemos exaltar por
essa loucura toda. Não há mistérios aqui. Recuso-me a aceitar uma
tragédia, neste caso. Vamos, faça sua
mala. Vamos partir bem cedinho. Jeová nos levará.
Voltei para o meu quarto para
fazer a mala, o que fiz rapidamente, colocando a pasta com os esboços por cima.
Encontrei Chiara no corredor com uma valise, surpreendentemente pequena. Deve
estar realmente assustada, para partir assim às pressas. O que, realmente, se
passou entre eles? Tenho graves desconfianças...
Jeová já está a postos diante
do Mercedes. Ela deve tê-lo chamado por algum interfone em seu quarto... Parece
um pouco perturbado, triste, mas compenetrado de sua função. Abre-nos a porta e
põe nossa bagagem no porta malas. Nem
sinal de Antônio. Podemos partir. Rezo para que ele não apareça agora.
O carro pega a estrada em
direção à porteira, distante da casa. Ao parar diante dela para abri-la, somos
interceptados por Antônio a cavalo, com a sua grande luva e a Harpia
encapuçada, empoleirada em seu braço. Faz-nos um gesto apontando a casa. Fica
claro que quer que voltemos. Na verdade é uma ordem...e a Harpia não está ali à
toa.
Amedrontadas estamos as duas,
mas eu estou ao mesmo tempo furiosa. Quem Antônio pensa que é? Algum senhor
feudal? Jeová volta de marcha ré, até o cascalho diante da varanda. Descemos as
duas com o rabo entre as pernas, por assim dizer. Mas logo, recobro-me e
enfrento Antônio e sua águia, gritando:
--Pare com isso, Antônio, você
não tem o direito de nos reter aqui. Você está nos ameaçando com esse monstro?
Guarde a águia! O que você quer? Não somos suas prisioneiras! Ou somos?
Antônio tocou seu cavalo para
cima de nós, de um lado pro outro como se faz nas comitivas, tocando as rezes,
e fez-nos correr, humilhadas e assustadas para dentro. Sua gargalhada fechou o
episódio.
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Sentadas as duas na minha cama,
derrotadas, por enquanto, entreolhamo-nos envergonhadas.
Depois de um longo suspiro,
Chiara sorriu tristemente, e voltando seu rosto para mim, ergueu meu queixo com
os dedos e olhando meus lábios aproximou os seus num longo beijo, suave,
profundo. Senti a nossa força de mulheres, correr nossos corpos como uma onda.
Em seguida estava deitada com ela cobrindo-me com seu corpo, lambendo-me
suavemente, com beijinhos intermitentes. Abandonei-me. Era tudo o que havia a
fazer. Seria essa a nossa vingança? A revanche do harém... O sultão que se
cuide com a “mulherada” a sós. Sorri com
esse pensamento, e correspondi aos beijos de Chiara. Logo estávamos nuas e
ofegantes, entredevorando-nos apaixonadamente. Era preciso que nos amássemos de
verdade, para que nossa vingança fosse completa. Sabíamos disso e sentíamo-nos
apaixonadas. Isso nos comoveu e nossas lágrimas se confundiam. Estávamos todas
molhadas e não tardamos em... Parecia
querermos entrar uma dentro da outra pelos nossos lábios de baixo.
Práticamente desmaiamos uma de cada lado entre nossas pernas. Melhor assim.
Antônio testemunharia nosso sono vaginal, uterino, adulterino...
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Dormimos por horas, não sei
quanto tempo. Acordamos cobertas por um lençol de seda, sinal de que alguém nos
observara em nosso sono saciado. Seria Antônio, ou a empregada? Essa se
escandalizaria. Não, isto era bem de Antônio, afirmou-me Chiara. Na verdade, a
cena o excitara. Como vingança aquilo era um fracasso. Desconfiei de Chiara,
que sempre soubera disso...já devia ter passado por essa experiência, nas
mesmas circunstâncias. Devo estar sendo usada por estes dois. Este pensamento
fez-me estremecer. Mas...eu já estava apaixonada por Chiara, e sou fiel às
minhas paixões. Olhei-a tristemente, passando minha mão no seu rosto e resolvi
entregar-me aos acontecimentos. Olhava o belo rosto de Chiara, seus lábios
entumecidos de beijos, e pensava que ,na verdade, tudo fazia sentido, que não
há gratuidade na vida, e quem nos beija assim, nos merece. Queria abandonar-me
até onde minha dignidade se preservasse.,
até onde minha auto estima suportasse. O resto...
A empregada veio chamar-nos para
o almoço. Como boas meninas nos arrumamos e penteamos. Queríamos estar
maravilhosas. Isso foi fácil, pois nossos olhos brilhavam e nossos lábios estavam
aflorados, túmidos. Nossa sensualidade estava à flor da pele, e devíamos ser
vistas assim pelo nosso tirano.
Antônio olhou-nos com um sorriso
malicioso nos lábios. Serviu-nos champanhe. Nada perguntamos, sabíamos o que
estávamos comemorando. Isso tudo nos divertia, aos três. Que grandes sacanas!..
Tivemos um repasto maravilhoso. Estávamos, surpreendentemente, na melhor das
disposições. Chiara e eu nos olhávamos o tempo todo, flertando. Antônio parecia
deliciado com isso. Percebi, de repente, que através de sua mulher ele também
me tinha. Possuía-me indiretamente, espiritual e carnalmente, ao mesmo tempo.
Acabávamos sempre fazendo o seu jogo. O homem era poderoso, em
sua psique inquebrantável, na sua malícia inocente. Antônio nada dizia, mas seu
silêncio era jocoso, brincalhão e sedutor, ao mesmo tempo. Quando afinal abriu
a boca, disse:
- Estou feliz por vocês. Esta
casa precisa de amor e leveza. Duas mulheres são mais leves que uma, quando há
tesão na jogada.
Lembrei-me da frase de Nietzsche: “As
grandes coisas exigem que não se fale delas. A menos que se fale delas com
grandeza. Com grandeza quer dizer: com cinismo e inocência.” Imediatamente
perdoei Antônio. Decididamente ele estava à altura das circunstâncias e entendi
o culto que Jeová lhe fazia. Esse homem era forte e não podíamos derrotá-lo
facilmente. Muita água haveria de rolar.
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Ao cair da tarde, eu já
passeava com Chiara de mãos dadas pelo jardim. Visitamos os pavões, fazendo
piadinhas, comparando-os ao Antônio. Ríamos muito, estávamos encantadas com
nossa cumplicidade recém descoberta. Sentíamo-nos mais seguras e beijávamo-nos
a todo momento. Sabíamos que só estaríamos fortes se investíssemos de verdade
nesse amor nascente. Quem poderia contra duas mulheres assim? Eu já pensava em
viver com ela para sempre, em meu ateliê. Quanta loucura! Esquecia que esta
mulher era rica, fazendeira, e conhecia o mundo. Meu universo seria risível
para o seu cosmopolitismo. Ela não suportaria mais de um mês a bagunça do meu
ateliê, e o cheiro de tinta. Mas eu estava entregue à fantasia de uma relação
ideal.
Neste momento chegamos perto sem querer, da gaiola
da Harpia. Estremecemos. Entreolhamo-nos, confusas. Caímos de nossa nuvem. O
monstro nos fitava, às duas, com seus olhos abissais. Demo-nos as mãos e saímos
correndo como duas crianças assustadas.
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À noite, Chiara veio de
camisola para o meu quarto para dormirmos juntas. Tentaríamos ignorar Antônio,
que dormiria só, esse era o seu castigo. Na verdade, morríamos de curiosidade
de saber como ele estaria em seu quarto. Acabamos adormecendo, abraçadas, mas
lá pela madrugada percebi estar sozinha. Chiara não estava mais comigo.
Levantei-me, nua, e fui novamente escutar à porta do quarto deles. Ouvi
nitidamente os gemidos e suspiros de êxtase de Chiara, empurrei a porta que
estava apenas encostada e vi-os na cama em transportes de prazer. Chiara estava
de quatro, e Antônio a penetrava por
trás, com sofreguidão. Chiara olhou-me com o olhar esgazeado, os lábios
abertos, inchados de luxúria. Permaneci um momento fascinada, enquanto Chiara
estendia-me um braço convidando-me a juntar-me a eles. Hesitei por uma fração
de segundo, mas o amor próprio venceu, a duras penas, e voltei correndo para o
meu quarto.
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Acordei após uma noite agitada,
cheia de sonhos estranhos. Chiara estava ao meu lado adormecida e por uns
momentos eu já não sabia se o que eu
vira, acontecera mesmo, ou eu sonhara com aquilo. A sensação foi tão
confusa, levantei o lençol do seu corpo
nu e aproximei minhas narinas do seu sexo. Senti o forte cheiro de esperma e o
mundo se tornou real novamente, com a sua nota caótica e crua. Atirei o lençol
ao chão e deixei-a ali, exposta. Entrei no banheiro para um banho demorado.
Deveria ir embora de uma vez? Estava confusa. Ao sair do banho encontrei Chiara
sentada, nua, na cama, olhando-me enigmaticamente. Estendeu-me a mão para que
me juntasse a ela. Queria abraçar-me. Embora banhada e refrescada, não resisti.
Seu cheiro, misturado ao de Antônio, excitava-me e deixei-a fazer comigo o que
quisesse. Beijava-me docemente, acariciando-me os seios, murmurando: “meu
amorzinho, meu amor, minha querida, como você é bela...” Sugou-me longamente os mamilos e introduziu os dedos
no meu sexo ensopado. Não podia resistir-lhe e sabia que quando Antônio me
quisesse, também não poderia lutar, pois já conhecia o seu cheiro.
Tinha caído num processo
tentatório, perante o qual não tinha defesa. Meu sofrimento existia apenas por
saber que aquilo tudo tinha um fundo falso, que eu não sabia definir.
Fatalmente eu sairia ferida daquilo tudo. Assim pensava, ao mesmo tempo que
tomada pelo prazer. Mas, como sempre acontece comigo, apaixonada, entrego até a
alma, no limite da perdição. Deixei-a empolgar-me toda. Ela introduzia a língua
ávida em todos os meus orifícios e desmanchou-me em êxtase e ternura líquida.
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Fiquei muito tempo largada na
cama, numa doce letargia, antes de voltar ao banheiro para banhar-me novamente.
Chiara estava no chuveiro, que de tão quente transformara o aposento numa sauna
vaporosa. No meio daquela bruma, avistei-a , acariciando-se com o sabonete. Que
bela mulher era Chiara! Tudo isso tinha que acontecer. Pessoas como nós, belas,
sensuais, não podem passar incólumes entre si. Fatalmente nossos corpos e almas
clamariam uns pelos outros. Rompidas as barreiras, agora nos restava desfrutar
de nossa juventude e beleza, de nossos corpos e almas inocentes, na verdade.
Que mal havia em nós? Certamente nenhum, pelo menos em nós duas. Já em Antônio,
eu tinha minhas dúvidas. Esse homem era mais complexo, e o ponto cruel, existia
no meio de sua pupila que refletia a Harpia, o monstro sagrado. Arrepiei-me toda
e caminhei nua na bruma em direção à
minha nova deusa.
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Dias se passaram em doces
devaneios e suaves prazeres. Antônio parecia como sempre calmo, mas obstinado.
Revelou-nos que sua meta era libertar a águia, de modo que ela, domesticada,
não desaparecesse. Queria que ela voasse solta por aí, caçasse e voltasse
sempre para um poleiro de aço, que mandou construir em frente à casa no meio do
gramado. O plano era arriscado, alguém poderia abatê-la em pleno vôo, sabem
como são esses caboclos. O animal era assustador, e mesmo domesticado, tinha um
aspecto ameaçador. Depois, não merecia absoluta confiança, com aquele bico e
garras mortais. Como poderiam receber crianças naquela casa? E gatos, e
cãezinhos? Não, aquilo era um monstro, na verdade, e o plano me parecia
absurdo. Antônio, com isso, mostrava um universo interior que não incluía os pequenos
seres frágeis, as doces criaturinhas de Deus. Lembrei-me do poema “O Tigre”, de
William Blake: “ Quem te fez, fez também o Cordeiro?” Recitei o poema de Blake
para ele, que mostrou-se deliciado, mas não da forma que eu esperava. Ficou
obsecado e pediu-me que o escrevesse num papel de carta.
Quanto à Chiara, ia do seu leito
para o meu, regularmente como uma peregrinação metódica em que trazia as
relíquias e os aromas, de um para o outro. Uma vez depôs um montículo de pêlos
pubianos de Antônio sobre o meu seio. O pior, ou melhor, é que fiquei
enternecida e arrepiada ao mesmo tempo. Seu fetichismo desenvolvia-se a olhos
vistos, e tratou de levar os meus pentelhos louros, também, para o outro,
cortados enquanto eu dormia. Estaria enlouquecendo, docemente? Que se passava
no seu coraçãozinho doente? É claro que eu sabia, ou, pelo menos, pressentia.
Depois de dominar o meu espírito pelo amor, queria presentear-me ao seu amado,
e ele a mim. Sua meta também era libertar uma “águia”, domesticada, de tanto
medo de perdê-la. Eles eram iguais, ambos tomados pela mesma loucura, eu
percebia, mas nada podia fazer para deter o processo. Na verdade, nem queria
deter nada. Ansiava por um desfecho natural, de Destino, mas não fatídico,
(essa palavra sempre me amedrontou). Lembrei-me do fato de que nunca consultei
uma pitonisa ou vidente, nunca me leram as cartas ou a mão, embora eu não
descarte essa possibilidade, um dia. Mas prefiro viver somente por hoje, coisa
que aprendi com um amigo alcoólatra, que conseguiu, com isso, milagrosamente
deter a sua doença.
Naturalmente, eu me encaminhava,
espiritualmente para o leito de Antônio. Só faltava o meu corpo me acompanhar,
o que aconteceu numa noite após deixar Chiara adormecida em meu leito. Nua, caminhei
pelo corredor escuro como breu até ser apanhada por mãos potentes que me
dominaram e carregaram nos braços, como o Bicho Manjaléu, da estória infantil.
A sensação de ser carregada por aqueles braços fortes, no escuro, foi
indizível, e a penetração foi tão maravilhosamente invasiva, que explodi num
orgasmo profundo, infinito, onde avistei todas as estrelas da Via Láctea, num
fenômeno de Alef, inexprimível.
Acordei muito tempo depois com
dores no corpo. Meu sexo e meu ânus doíam. Presumo que fui, na verdade,
estuprada, embora por consentimento. Mas estava tão plenamente satisfeita, que
espantei as dores em minutos. Corri para o meu quarto e dei de cara com o Jeová
no corredor carregando uns trastes. O gigante negro estatelou os olhos sobre o
meu corpo nu, por uns segundos, depois fechou-os bem e disse:
-- Sinhazinha Alma, eu nada vi!
Para mim a senhorinha é um cordeiro de Deus, toda cobertinha de lã... Deixe-me
passar, sinhazinha, que não abrirei o
olho!
Sorri, fazendo um esforço para não
fazer sequer o ruído de uma risadinha, que pareceria vulgar e tentador, e
esgueirei-me junto à parede para o gigante passar.
No meu quarto , permaneci um
tempo envergonhada. Caíra eu do pedestal diante do fiel servo gigantesco e
puro? Talvez sim, talvez não. Minha nudez nada tinha de ofensiva, disso estou
certa. Tenho as formas de uma ninfeta, embora já tenha trinta anos. Mas sei que
esse não é o ponto. Um homem simples como o Jeová é sempre muito conservador.
Mas suas palavras, lembrando-me delas, me tranqüilizaram. Sorri mais uma vez,
enternecida com a imagem do cordeirinho. Queria beijar aquele negrão nas faces,
meu doce Jeová...
Mas, a verdade é que ele me vira sair nua do
quarto de Antônio, o que para ele seria puro adultério, já que a palavra
“promiscuidade” não existiria certamente no seu vocabulário. Sua cabeça não
pararia no cordeiro, eu pensava. Mas afastei esses pensamentos. Jeová era um
homem mais puro que os outros, disso eu já tivera provas.
Tratei de banhar-me e
vestir-me e fiz um esforço para ir trabalhar diante da jaula do avejão, coisa
que começava ser penosa, pois meu corpo agora só queria o prazer, a cama, as
sensações fortes, tácteis, e a ave me horrorizava como o polo doloroso da vida,
com sua crueza e crueldade, não obstante sua beleza perfeita.
Permaneci desenhando com
dificuldade por alguns minutos. Meu espírito divagava. Imagens de corpos nus se
imiscuiam em meus pensamentos, e o rosto redondo de Jeová, aparecia,
alternadamente com as outras imagens, de Antônio, de Chiara, e da Harpia, com
seu grito mudo, de bico aberto e língua fina e pontuda, horripilante.
Chegara o Delírio da Razão,
goyesco, que produz monstros. Larguei o material de desenho ali mesmo e saí
correndo por entre as gaiolas, no meio do alarido súbito de toda a passarada.
Sentia-me perseguida por milhares de pequenas aves que me bicavam o corpo todo,
e a cabeça. Defendia instintivamente os olhos, e de repente caí e não vi mais
nada.
Fui carregada para dentro como
uma pluma, facilmente, em braços que eu não quis saber a quem pertenciam.
Recusava-me a abrir os olhos, como uma criança e assim fiquei muito tempo
cobrindo o rosto com os punhos e os braços. Ouvia vozes, súplicas, comandos,
mas resistia cerrando os olhos, fortemente, até que senti os dedos compridos e
finos de Chiara afastando meus punhos e abrindo meus olhos com dois dedos de
cada mão. Estava séria, mas logo sorriu dizendo:
- “ Alma, não se esconda.
Precisamos de você, princesa. Se você fecha os olhos, deixamos de existir, e então o que será de nós, perdidos no Nada?”
Notei a presença sorridente de
Antônio, e o rosto espantado de Jeová, que parecia não entender nada do que se
passava. Na verdade, era o único que parecia consternado. Agarrei Chiara e a
abracei numa explosão de lágrimas, puxei Antônio para perto de mim para
abraçá-lo igualmente. Queria fazer isso com Jeová também, mas o seu senso de
hierarquia o fez afastar-se discretamente. Ah! Como eu amava estas três
pessoas... Naquele momento eu só sabia disso, só me cabia isso: amá-los,
amá-los, incondicionalmente, e exorcizar todo o mal que porventura nos
rondasse. Proteger-nos a todos com o meu amor, nem que para isso eu precisasse
ser devorada pela Águia. Meu delírio ainda me tomava, e assim fiquei: em estado
de amor e êxtase heróico. Entre a paixão
erótica e o sacrifício sublime, por três dias e três noites, no leito. Chiara e
Antônio se desvelaram à cabeceira, revezando-se. Até que voltei a mim, uma manhã, subitamente.
Estava sozinha num quarto muito branco que eu desconhecia. Parecia um quarto de
menina, sim, tudo ali era meio infantil. Os quadrinhos nas paredes... Um
diplominha de primeira comunhão: “ Lembrança preciosa...” e umas bonecas no
chão, num canto. Onde estou, pensei eu, estarei no céu, voltei no tempo?
Olhando pela janela de cortininhas xadrez, percebi que ainda estava na fazenda,
na casa de Chiara e Antônio. Chamei-os e Chiara entrou sorrindo e estendendo-me
os braços:
--“ Bemvinda, nossa hóspede
fujona! Você voltou, afinal. Que susto nos deu!.. Seus caminhos eram
assustadores e não pudemos seguí-la. Só nos restou esperar o seu retorno. Você
voltou, querida, estou vendo.” - e abraçou-me comovida e alegremente. Olhei bem
o seu rosto e ela já não me parecia mais doente do que eu. Na verdade, estava
feliz e fresca como uma flor de primavera. Pensei imediatamente na relatividade
de tudo e sabia de antemão que Antônio apareceria naquela porta, mais forte e
tranqüilo do que nunca. E sua aparição me seria grata, sem sombra de crueldade,
pois tudo não podia ter passado de puro delírio da minha sensibilidade mórbida.
Sou eu, sempre eu, não as pessoas, pensei... Elas nada tem de terrível, sou eu
que as amo demais, que me apaixono, enlouqueço e sofro. Sempre foi assim, eu
pensava.
Nesse momento, Antônio entrou
realmente. Apareceu na porta do quarto. Belo, forte, sorridente, seguro. Que
homem! pensei... Estendi-lhe a mão, e ele, galantemente a beijou, segurando-a nas suas. Lembrei-me de
que esse homem me possuíra quase com
violência, no escuro, e esse pensamento, me enrubeceu como uma noiva recém
deflorada. Chiara notou esse movimento interior e sorriu afagando-me o rosto.
Eu acordara ainda amando esses dois, e isso não tinha mais jeito. Senti que
sofreria a separação inexorável que viria, a qualquer momento. Parecia-me não
poder mais viver sem eles. Porque sou assim, tão dependente dos meus amores?
Porque morro cada vez que os perco? Haja coração, haja alma!.. pensei. Queria
engoli-los, aos dois, e mais ao Jeová, essa é que é a verdade!
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Reunimo-nos todos diante da
jaula da Águia. Cercada pela pequena platéia dos personagens deste conto,
sentei-me no chão, em posição de lótus e coloquei a folha de papel branco, no
solo, entre os meus joelhos. Então, molhando o pincel de bambu no pote de tinta
nanquim, com dez traços, sem hesitação, fiz o desenho definitivo da
Harpia.
28/12/2001